Processos de garimpos ocupam mais de 24% do território de MT
A Lavra Garimpeira, que marca a efetiva exploração mineral, concentra 8% dos processos
Levantamento sobre as pressões e ameaças às terras
indígenas em Mato Grosso, referente ao período de 2024 e
2025, revela a expansão da atividade minerária no estado.
Segundo o boletim da Operação Amazônia Nativa (OPAN), o
número de processos minerários em Mato Grosso saltou de
5.926 em 2018 para 13.627 em 2025, um aumento
acumulado de quase 130%.
Atualmente, a área total sob interesse minerário no estado
soma aproximadamente 22,5 milhões de hectares.
Isso
significa que um quarto de todo o território mato-grossense
(24,9%) está vinculado a algum processo de mineração,
uma extensão territorial comparável ao Reino Unido.
O processo de mineração contempla todos os pedidos de extração mineral e os que já estão em operação. A Lavra
Garimpeira, que marca a efetiva exploração mineral, concentra 8% dos processos, correspondendo a 1.103
registros e uma área de aproximadamente 738.154,94 mil hectares, refletindo a presença consolidada dos
garimpos em Mato Grosso.
O cerco aos territórios tradicionais
Os processos minerários analisados no boletim estão localizados no entorno, a 10 km, das terras indígenas em
Mato Grosso. Esse parâmetro de distância segue diretrizes técnicas utilizadas pelo Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em processos de licenciamento ambiental, conforme
previsto na Portaria Interministerial nº 60/2015, que garante a atuação de órgãos federais como a Fundação
Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em casos de empreendimentos com potencial impacto sobre povos
indígenas e comunidades tradicionais na Amazônia Legal.
Essa delimitação geográfica evidencia a escala do problema: 93% das terras indígenas no estado possuem
processos minerários em seu entorno imediato, no raio de 10 km. Das 74 terras indígenas registradas na base de
dados geográfica da Funai, 69 estão sob pressão.
Para o indigenista e geógrafo Cristian Felipe Rodrigues Pereira, um dos autores do boletim, o limite de 10 km
constitui apenas um critério técnico-administrativo.
Ele alerta que os impactos reais da mineração e de outras obras
de infraestrutura frequentemente ultrapassam significativamente esse perímetro legal.
“Tais atividades afetam os territórios indígenas por meio de uma série de efeitos cumulativos e indiretos, como
alterações no uso do solo, contaminação de recursos naturais, pressão demográfica e desestruturação
sociocultural”.
O indigenista ainda aponta que a forma como os processos minerários são conduzidos não garante a consulta
livre, prévia e informada aos povos indígenas.
"A predominância de títulos voltados à 'Autorização de Pesquisa' e ao 'Requerimento de Lavra Garimpeira' revela
uma estratégia de ocupação acelerada que muitas vezes atropela o direito à consulta”, afirma.”.
Impacto aos territórios
Entre os destaques do relatório está a Terra Indígena (TI) Sararé, habitada pelo povo Katitãuhlu (subgrupo
Nambikwara), que se tornou o território com o maior número de alertas de garimpo ilegal no Brasil em 2025,
registrando 1.814 ocorrências, conforme levantamento do Ibama.
No ranking do boletim da OPAN, a TI Sararé ocupa a quarta posição no estado entre as terras indígenas com mais
hectares de processos minerários em seu entorno, com uma área de 153.418,58 hectares.
Em primeiro lugar aparece a TI Vale do Guaporé, que possui a maior área de processos minerários em seu
entorno, com aproximadamente 237.061,77 hectares. Em segundo lugar aparece a TI Escondido, com 195.355,32
hectares, seguido de perto pela TI Piripkura, de povos indígenas isolados, com 157.620,48.
Sobreposição direta
O documento ainda revela o número de territórios indígenas que têm sobreposição direta de processos minerários,
com a existência de 14 processos em cinco terras indígenas em Mato Grosso.
Essa sobreposição atinge um total
de 2.784,80 hectares, incidindo diretamente nas terras indígenas: Kapôt Nhinore, Kayabi, Pimentel Barbosa, Portal
do Encantado e Menkü (II).
Cabe ressaltar que os dados não contabilizam o número de alertas de garimpo ilegal nos territórios, como os
registrados na Terra Indígena Sararé pelo Ibama.
Bacia do Juruena: expansão em ritmo acelerado
A bacia do rio Juruena, área de vital importância ambiental, também viu a pressão minerária crescer 7% em um
ano. Passou de 2.669.873,6 milhões de hectares em 2024 para 2.856.512,71 milhões em 2025, crescimento
equivalente ao tamanho da cidade do Rio de Janeiro.
"A predominância de pedidos para mineração de ouro, cobre e diamante revela uma lógica de exploração voltada
para bens de alto valor estratégico e demanda internacional, frequentemente ignorando os direitos territoriais e
culturais dos povos indígenas", afirma o relatório.
Brechas na legislação
O boletim aponta que uma das principais ameaças reside na "flexibilidade" das normas ambientais. Muitos
empreendedores utilizam a Guia de Utilização, um instrumento que permite a extração comercial de minérios ainda
na fase de pesquisa, antes mesmo da conclusão de estudos de impacto ambiental profundos.
"A fase de pesquisa, que deveria ser científica, pode acabar se tornando exploração econômica antecipada sem os
requisitos rigorosos de licenciamento, como o EIA/RIMA", destaca o texto. Atualmente, a Autorização de Pesquisa
representa 29% de todos os títulos minerários no estado.
Apesar do cenário, o monitoramento registrou uma notícia positiva: houve uma redução de 77,3% na área de
processos minerários sobrepostos diretamente (dentro dos limites) às terras indígenas. Esse recuo foi
impulsionado principalmente pela retirada de processos na TI Paukalirajausu.
Recomendações
O relatório conclui com uma recomendação urgente aos órgãos licenciadores – Secretaria de Estado de Meio
Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT) e Agência Nacional de Mineração (ANM) – : exigência de EIA/RIMA para
todas as atividades minerárias num raio de 10 km de terras indígenas, substituindo estudos simplificados.
Além disso, que seja concluída a desintrusão imediata da TI Sararé, com vigilância permanente para impedir o
retorno de garimpeiros e facções criminosas. E o monitoramento rigoroso dos processos que ainda incidem
diretamente sobre territórios protegidos.






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